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como a banda toca

Dib: 37 anos de tradição árabe que atravessa gerações

Desde 1989, a família Dib mantém funcionários que ficam décadas em um mesmo prato — e uma memória afetiva que atravessa três gerações, dos avós aos netos que hoje comandam o restaurante.

04 de ago. de 2026
Entrada do Dib Especialidades Árabesfoto OQMS
Entrada do Dib Especialidades Árabes — foto OQMS

Muito se fala da forma como a memória afetiva influencia nas escolhas quando falamos sobre comer e beber. Desde criança, nos deparamos com diversas ocasiões onde o ponto central da lembrança é a comida, seja por meio de algum lugar, de algum sabor, de algum som, do que quer que seja. Lembro-me quando morava na Rua Mário, na Vila Romana, e assim que ouvia o carro da pamonha passando, não hesitava e descia para pegar uma. Aquilo nos marcou tanto a ponto de ser uma das últimas coisas que minha avó me disse antes de partir: você não podia ouvir o som que já saía correndo, desesperado. Minha avó sempre pegava muito no pé do meu avô. Mas ele, acostumado com a dinâmica, fazia algumas coisas para tentar burlar a "encheção de saco". Uma delas, talvez a principal, era sair do escritório que tinha na Rua Venâncio Aires, na Pompéia, e passar direto no Dib para pegar algumas coisas para levar para casa. A tática era simples: ele entrava, pegava para viagem e levava para comer com minha avó. Só tinha um detalhe: sempre pegava um kibe frito a mais e ia comendo no caminho, até o apartamento que tinham na Bela Vista. Quando chegava, fingia não ter comido nada ainda e podia repetir o item favorito dele na loja. Ainda por cima ganhava pontos com minha avó, que comia algumas esfihas recém-saídas do forno. Na época, claro, ainda não era tão comum o esquema de delivery; apenas alguns estabelecimentos faziam isso, mas o mais comum era ir até o lugar, buscar e voltar para casa para comer.

É por isso que, no OQMS, queremos contar histórias de lugares que nos remetem a momentos importantes de nossas vidas. O Dib, com certeza, é um deles. Visitamos essa mesma loja que já praticamente triplicou de tamanho e fomos recebidos pelo Leonardo, que está na 3ª geração da sucessão comandando o lugar, junto com o irmão, Pedro. O restaurante surgiu um pouco por acaso. Na Avenida Professor Alfonso Bovero, o Avô, Ricardo, tinha uma loja onde vendia algumas coisas. O filho dele, Wagner, pai de Leonardo, alguns anos depois, abriu uma mecânica. A avó, Mirta, sempre teve o dom da culinária árabe e cozinhava para toda a família. Decidiram, então, abrir a primeira unidade em 1989. Na época, era uma portinha, mas rapidamente se tornaram uma referência no bairro.

Nas estufas, ficam expostas algumas das esfihas e o kibe, que são os mais pedidos. Além disso, os doces árabes, feitos todos na casa, também têm destaque. Leonardo nos leva para conhecer a cozinha, e ficamos surpresos com o tamanho. Ele explica detalhadamente as seções, da área onde as massas são feitas até os recheios, passando pela grelha e pelas fritadeiras. Rapidamente, nos conta um dos principais segredos: funcionários longevos. Dona Neusa, que faz os charutos de folha de uva, está lá há 30 anos. Pasmem, ela é responsável por um dos itens mais famosos da culinária árabe quase desde a abertura do restaurante, que completa 37 anos. Ela, inclusive, trouxe a filha para trabalhar por lá. Certa vez, ela decidiu que não ia mais continuar fazendo aquilo por desavenças com outras funcionárias mais novas. Leonardo conta que para substituir a quantidade da produção, foram precisas 3 funcionárias. Restou à família que comanda o restaurante convencê-la a voltar, e ela aceitou de prontidão.

É uma história parecida com a de Fran, o responsável pelas esfihas. São preparadas uma a uma, à mão pela mesma pessoa que está lá há 23 anos. A rapidez e agilidade no trato impressionam e após finalizado o trabalho, resta levá-las ao forno.

Além desses itens, que estavam muito bons, comemos coalhada, homus, pão sírio feito na casa, kibe cru, kibe frito, fatuche. Um banquete, como deve ser.

Leonardo conta ainda os desafios de abrir a 4ª unidade, mas, principalmente, a felicidade que sente em ter conseguido sobreviver por tanto tempo ao caótico meio gastronômico que aniquila a maioria dos estabelecimentos abertos há pouco tempo, infelizmente.

Manter a tradição e seguir o caminho é uma escolha, não uma imposição. Leonardo e Pedro fazem isso com maestria e orgulho, e conseguem alegrar o avô, lá do céu, onde quer que ele esteja.

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