O que mais sai na Rua Medeiros de Albuquerque
Em um raio de menos de 200 metros, seis lugares fazem dessa rua um verdadeiro polo gastronômico de São Paulo — e a raridade é que todos são bons, cada um com sua proposta.
Olhando pelo mapa, fica difícil saber qual é o bairro exato da Rua Medeiros de Albuquerque. Em alguns casos, aparece como Vila Madalena (a que considero mais fiel), em outros, Pinheiros, e, com grande surpresa, uma outra nomenclatura que não conhecia, sendo sincero: Jardim das Bandeiras.
Iniciando de "cima para baixo", temos o Pasta Shihoma. A primeira vez que fui lá, no ano de abertura do ponto físico, em 2021, me surpreendi muito com tudo. E desde então retornei 3 vezes, com relativa distância entre as visitas, tendo ido pela última vez em 2025. As entradas, os pratos principais e as sobremesas, tudo feito com muito carinho e cuidado. Através do espelho que mostra a cozinha, as massas frescas são feitas na hora, com foco nas massas recheadas. Dos 3 sócios originais, dois se mantêm — Marcio Shihomatsu e Joey Lima —, enquanto Bia Freitas saiu em meados do ano passado para abrir o Lina Ristorante. Há quem diga que o lugar perdeu um pouco a essência e que é caro para o que oferece, mas continua sendo um dos locais mais disputados da cidade, e entendo que o foco seja mais a delicadeza dos pratos do que a robustez; por isso, é necessário fazer uma refeição completa para gerar saciedade (no meu caso).
Logo em frente, atravessando a rua, o Lobozó, que se autointitula um restaurante de Culinária Caipira da Paulistânia, serve uma comida com personalidade. E é o que se espera ao entender quem são as pessoas no comando: Marcelo Corrêa Bastos (também sócio do Jiquitaia e do Sororoca) e Gustavo Rodrigues (sócio do Sororoca), além do sociólogo Carlos Alberto Dória. Quando você entrar, vai se deparar com duas mesas compartilhadas mais altas. Fica um pouco difícil entender o ambiente em si, mas aos poucos é possível compreendê-lo. A comida é boa, e o cardápio passa pelas seguintes seções: balcão de frios, petiscos, sanduíches, pratos feitos, os especiais de cada dia da semana em que abrem (fecham às terças) e sobremesas, além de terem frango e porchetta para compartilhar e outros itens sob encomenda. Caipirinha e cerveja acompanham a refeição.
O lugar mais despretensioso da rua é o Barouche. Um bar, café e livraria, tudo junto. O espaço interno, composto por poucas mesas, algumas banquetas, um pé direito alto e uma parede de livros, por si só já vale a visita. Mas o grande trunfo está na área externa, onde é possível acompanhar o pouco movimento da rua tomando alguns drinques bem executados da carta elaborada por Danilo Nakamura e Renan Scussel, acompanhado de algumas coisas para beliscar ou até matar a fome. Ideal para ir em grupos pequenos ou em um encontro a dois.
Sempre gostei muito de sorvete, mas nunca fui tão fã a ponto de escolher um sorvete em detrimento de um doce, por exemplo. O sorvete da Pinguina foi o que conseguiu inverter essa lógica. Tudo é feito na casa, desde as casquinhas até todos os sabores, sem a utilização de gordura hidrogenada. Agora eles até já fazem milk shakes, brownies, cookies, entre outras coisas. Mas o sorvete continua o ponto alto.
Apesar de não gostar do termo "subestimado", que parece garantir superioridade à opinião de quem o usa, eu não me incomodo em classificar assim o Taboa. Aos finais de semana, são poucos os lugares bons na cidade em que você consegue uma mesa chegando por volta das 14h. Hoje em dia, ou você chega no horário em que abre ou então vai com bastante calma pra esperar. Mas ainda é possível encontrar uma mesa, seja no corredor externo ou na parte externa. A chef Carla Costa, que passou pelo Barú Marisqueria e pelo Tordesilhas, é uma das grandes cozinheiras da cidade. A hospitalidade é o ponto forte, e por mais que o restaurante esteja lotado e no auge do serviço, ela faz questão de passar mesa por mesa, seja para perguntar como estavam as coisas ou então para conversar sobre o prato e, pasmem, até sugerir mudanças nos acompanhamentos dos pratos principais. Os pastéis, o polvo, a lula, o peixe, as moquecas, o porco, tudo muito, muito bom. Uma comida que conforta e traz um ar de afetividade na primeira mordida. Mas o ponto alto fica com as sobremesas. O bolo de milho e a torta de maçã, por si só, já valem a visita. Não que o resto não esteja à altura, mas com certeza é inaugurado um novo patamar (mais acima, claro) quando se encerra uma bela refeição dessa forma.
Confesso que o estabelecimento que me traz mais dificuldade para descrever é o Corrutela. Foram duas vezes lá: uma em 2019, quando tivemos um belo jantar, e a mais recente há cerca de 2 anos, durante um almoço de sábado. O ambiente é um pouco industrial, se é possível descrever um espaço de restaurante dessa forma, com a cozinha no centro, alguns lugares no balcão e mesas periféricas. O local, que era comandado até abril deste ano pelo chef César Costa e se autointitula um restaurante de cozinha sustentável, mudou um pouco a dinâmica e atualmente serve um menu executivo de quarta a sexta-feira (que é alterado a cada semana), um menu à la carte (todos os dias de abertura) no almoço e no jantar, e um menu degustação no jantar. O que mais gosto de lá é a forma com que a refeição é montada, quase como um banquete, mas não um banquete que remete à fartura, mas sim à qualidade dos alimentos. O novo menu à la carte mudou um pouco essa dinâmica, mas itens como a linguiça, o peixe e os ovos nevados de jenipapo merecem destaque e são praticamente insubstituíveis. O menu degustação tem 5 atos e custa R$ 350,00. Confesso que estou curioso para provar.